Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

Histórias de vida...

 

Todos nós temos a nossa própria história para contar. Algumas são mais simples, directas, sem muitos actores secundários, sem grandes reviravoltas no enredo; outras parecem precisar de toda uma saga de livros ou filmes para serem contadas.

 
Todos os dias nos cruzamos com dezenas ou centenas de outras pessoas e raramente nos lembramos que cada uma delas tem uma história própria, irrepetível, pessoal, intransmissível.
 
Hoje, quando me encaminhava já para a saída do shopping, onde almoço quase todos os dias, reparei, em poucas fracções de segundo, numa mulher que estava sentada, a almoçar sozinha. Por alguma razão pareceu-me que ela tinha um dos olhares mais tristes que já vi. Não posso sequer imaginar qual a história daquela pessoa mas, naquele breve segundo, tive a certeza de que nesse momento não era feliz. Talvez fosse apenas uma preocupação tola sobre algo relacionado com o trabalho… talvez fosse a tristeza de um amor perdido que nunca mais voltou… talvez fosse a inquietação por um dos seus filhos estar doente… talvez tivesse visto alguém importante para si desaparecer recentemente… talvez sentisse que a sua vida não tinha grande sentido ou alegria… Naquele momento, se pudesse ter ficado alguns minutos a olhar para ela, poderia ter construído na minha cabeça toda uma história de vida para aquela pessoa que nunca havia visto.
 
Tudo isto me remeteu para um filme que até há bem pouco tempo ainda não havia visto, mas que de repente, por uma conjugação de situações, acabei por ver 3 vezes em pouco tempo: Eternal Sunshine of the Spotless Mind (ou em português “O Despertar da Mente”). Antes de mais, permitam-me dizer que o filme é brilhante… quem ainda não o viu, deve vê-lo urgentemente. Um excelente argumento de Charlie Kaufman, muitíssimo bem passado para o ecrã por Michel Gondry (com os seus truques de câmara e luzes) e com enormes interpretações de Jim Carrey e Kate Winslet (e muito bem secundados, principalmente por Mark Ruffalo).
Neste filme vemos desfilar à nossa frente boa parte da história de vida das duas personagens principais, nos seus momentos mais felizes, nos mais tristes, nos mais desequilibrados e até tresloucados, nas suas incongruências, lutas, rotinas, decepções, êxtases… No fundo, numa vida que, apesar de alguns excessos e loucuras, poderia ser a de qualquer um de nós. Os dois vivem um grande amor… mas que (como talvez aconteça com todos os amores) acaba por cair numa certa rotina com a qual não sabem lidar. Talvez aí já esteja boa parte do espelho de uma das principais dificuldades das relações de hoje: como agir depois do fogo inicial se acalmar e dar lugar a uma vivência mais rotineira, em que a novidade e os momentos de clima de romance passam a ser mais esporádicos e não quase diários? A separação entre os dois acaba por ser inevitável… mas chega o dia em que Joel (Jim Carrey) descobre que Clem (Clementine – Kate Winslet) o apagou da sua memória! Sim, porque nesta história existe um médico que descobriu um processo através do qual consegue apagar da memória lembranças de situações, lugares, pessoas… Ao descobrir isto, Joel decide também ele fazer o mesmo: se ela o apagou da memória, então será melhor que também ele a apague totalmente das suas lembranças. E é durante este processo (que implica que, durante um sono induzido, o paciente reveja todas essas lembranças que ao mesmo tempo vão sendo apagadas) que Joel percebe que afinal não quer apagar Clem da sua memória… ao “reviver” todas as lembranças dos momentos que passou com ela (não só as boas, mas também as más), apercebe-se de que o amor que sente por ela é a coisa mais importante que possui.
 
Isto, obviamente, leva qualquer pessoa que veja o filme a questionar-se: se pudesse, será que quereria apagar da memória algumas partes da minha história de vida?
Já todos vivemos momentos maus… momentos que, num primeiro instante, nos levam a pensar que mais valia não terem acontecido, que queremos esquecer, superar, fazer de conta que não existiram… limpar da nossa memória! Momentos que nos trazem dor e tristeza. Mas a verdade é que se hoje somos quem somos, também o devemos a esses momentos, não só aos bons. Aliás, talvez o devamos principalmente a esses momentos!
Por outro lado, há coisas, situações, pessoas, que não nos saem da cabeça, por mais que tentemos… talvez aí o procedimento do Dr. Mierzwiak (o tal de apagar a memória) pudesse ser útil…
 
Mas ao mesmo tempo… quem nos garante que não nos íamos arrepender a meio, tal como Joel? Talvez o facto de querermos muito esquecer algo ou alguém seja, por si só, representativo da importância que isso tem na nossa vida… e que, por isso mesmo, limpá-lo da nossa memória talvez não seja o ideal para nós. Por outro lado, na vida real poucas vezes a história tem um final feliz, como nos filmes…

Mas até aí Eternal Sunshine of the Spotless Mind é sincero: não promete finais felizes… mas dá-nos a esperança de um “vamos tentar” sincero.

 

sinto-me: Spotless!
música: Everybody's got to learn sometime
publicado por Nuno às 15:16
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1 comentário:
De Anónimo a 25 de Maio de 2009 às 23:26
Gostei de ler estes teus pensamentos! São de facto muitas vezes os momentos mais tristes que nos fazem crescer e é com os erros que aprendemos... Gostava tambem de dizer que cada momento seja ele mau ou bom que se vive com alguém nunca deve ser esquecido, mesmo que se tenha vontade. E lá porque há amores que terminam, as amizades não precisam de acabar...

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