Sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

A Bioquímica do amor...

 

Encontrei aqui este texto, bastante interessante e que explica muitas coisas. É grandinho e está em Português do Brasil, mas vale a pena ler... É engraçado perceber alguns aspectos bioquímicos por detrás de algo que consideramos sempre apenas no aspecto romântico e da idealização! Enjoy!

 

 

"O amor é um fenômeno neurobiológico complexo, baseado em atividades cerebrais de confiança, crença, prazer e recompensa, atividades essas que envolvem um número elevado de mensageiros / efetores químicos (T. Esch, G.B. Stephano, The neurobiology of love, Neuroendocrinology Letters No.3 26 (2005); H.E. Fisher, Why We Love: The Nature and Chemistry of Romantic Love, Henry Holt and Company, New York, 2004). 


O amor é freqüentemente dito como um fenômeno místico, muitas vezes espiritual, por vezes apenas físico, mas sempre como uma força capaz de determinar o nosso comportamento. Não será aqui discutida a magia do amor, mas apenas o amor do ponto de vista da bioquímica que lhe está associada: os compostos químicos que atuam sobre o nosso corpo – sobre o nosso cérebro, em particular – e nos transmitem todas as sensações e comportamentos que associamos ao amor.

 

 

As 3 fases do amor romântico

 

 

Foi a antropóloga Helen Fisher, que propôs a existência de 3 fases no amor, cada uma delas com as suas características emocionais e os seus compostos químicos próprios (H.E. Fisher, Lust, attraction, and attachment in mammalian reproduction, Human Nature – An Interdisciplinary Biosocial Perspective 9 (1998) 23-52 ; H.E. Fisher, A. Aron, D. Mashek, et al. Defining the brain systems of lust, romantic attraction, and attachment, Archives of Sexual Behaviour 31 (2002) 413-419.


A primeira fase é chamada "fase do desejo" e é desencadeada pelos hormônios sexuais, a testosterona nos homens e o estrogênio nas mulheres. É a circulação destes hormônios no nosso sangue – que se inicia na fase da adolescência – que torna o nosso cérebro interessado em parceiros sexuais. Ou, nas palavras de Helen Fisher "é o que nos leva a sair à procura de qualquer coisa".


A segunda fase é a "fase da atração", é quando nos apaixonamos, ou seja, é a altura em que perdemos o apetite, não dormimos, não conseguimos concentrar-nos em nada que não seja o objeto da nossa paixão. É uma fase em que podem acontecer coisas surpreendentes, que por vezes dão origem a situações divertidas (para os outros) e embaraçosas (para o próprio): as mãos suam, a respiração falha, é difícil pensar com clareza... enfim... e isto tem relação com outro conjunto de compostos químicos que afetam o nosso cérebro: a norepinefrina que nos excita (e acelera o bater do coração), a serotonina responsável pelo controle e equilíbrio emocional, e a dopamina, que nos faz sentir felizes.

 

 

Curioso é verificar que todos estes compostos químicos são controlados por um outro, chamado feniletilamina. Aparentemente, a feniletilamina é degradada rapidamente no sangue, sendo que não haverá possibilidade de atingir uma concentração elevada no cérebro por ingestão...


A feniletilamina controla a passagem da fase do desejo para a fase do amor e é um composto químico com um efeito poderoso. As pessoas que tem elevada produção de feniletilamina ou que são mais responsivas aos seus efeitos tendem a saltar de romance em romance, abandonando cada parceiro logo que o "cocktail" químico inicial se desvanece. Quando permanecem casados, os "viciados do amor" são freqüentemente infiéis, na busca de mais uma dose de excitação extra. Entretanto, o nosso corpo desenvolve naturalmente a tolerância aos efeitos da feniletilamina e cada vez é necessário maior quantidade para provocar o mesmo efeito, sendo portanto, que tais pessoas acabam por atingir um equilíbrio tão logo atinjam esta fase de tolerância a feniletilamaina.


A terceira fase é a "fase de ligação" – passamos à fase do amor sóbrio, que ultrapassa a fase da atração / paixão e fornece os laços para que os parceiros permaneçam juntos. Há dois hormônios importantes nesta fase: a oxitocina e a vasopressina. A oxitocina é também chamada a hormônio do "carinho" ou do "abraço", é uma pequena proteína, com apenas nove aminoácidos, produzida no hipotálamo. Esta proteína atua em certas partes do corpo (como por exemplo na indução do trabalho de parto) assim como em regiões cerebrais cuja função está associada com emoções e comportamentos sociais. Em animais, a oxitocina contribui para as uniões sociais (incluindo uniões macho-fêmea e uniões mãe-filho) e acredita-se que também atua diminuindo as resistências que os animais têm à proximidade de outrem. Num estudo efetuado em 2003, verificou-se que a inalação de oxitocina provoca um aumento da confiança nos outros (M. Kosfeld, M. Heinrichs, P.J. Zak, et al., Oxytocin increases trust in humans, Nature 435 (2005) 673-676). Este hormônio é liberado por ambos os sexos durante o orgasmo. O que parece indicar que quanto mais sexo um casal praticar, maior é a ligação química entre eles... H. Fisher sugere mesmo que a melhor forma de uma mulher se re-apaixonar pelo seu companheiro – na fase em que a relação já esfriou – é ter sexo (e, sobretudo, orgasmos) com ele (H. Fisher (Excerto de entrevista) Love@National Geographic Magazine, Fevereiro 2006; National Geographic Portugal, Fevereiro 2006, pag. 32).


A vasopressina é atualmente conhecida como o hormônio da fidelidade. É também uma pequena proteína de nove aminoácidos (8 dos quais comuns à oxitocina) e o seu papel no corpo humano é vasto – o nome vasopressina, por exemplo, está claramente relacionado com a sua ação sobre a pressão sanguínea.Em estudos recentes com um tipo de roedor dos campos foi revelada a sua relação com o comportamento monogâmico dos machos. Os estudos compararam o comportamento de duas espécies próximas de roedores do género microtus: a espécie microtus ochrogaster, de comportamento monogâmico e a espécie microtus montanus, de comportamento poligâmico promíscuo (M.M. Lim, Z.X. Wang, D.E. Olazabal, X.H. Ren, E.F. Terwilliger, L.J. Young, Enhanced partner preference in a promiscuous species by manipulating the expression of a single gene, Nature 429 (2004) 754-757). Os estudos de comportamento da espécie monogâmica mostraram que antes do acasalamento, a relação dos machos com os outros machos e fêmeas era uniforme. Contudo, após um dia de acasalamento, o macho fica "preso" à fêmea pelo resto da vida e não se aproxima de outras fêmeas nem admite a aproximação de outros machos. Aparentemente, é a produção de vasopressina após o ato sexual que determina este comportamento amoroso do macho, que apresenta um elevado número de receptores de vasopressina no cérebro. Contrariamente à espécie monogâmica, a espécie promíscua apresenta um número muito reduzido de receptores de vasopressina. Quando o roedor promiscuo é manipulado geneticamente para desenvolver receptores de vasopressina torna-se monogâmico. Por outro lado, quando é injetado um fármaco que inibe o efeito da vasopressina na espécie monogâmica, os casais perdem a sua devoção mútua e o macho deixa de defender a fêmea da aproximação de outros machos (H. Fisher (Excerto de entrevista) Love@National Geographic Magazine, Fevereiro 2006; National Geographic Portugal, Fevereiro 2006, pag. 32). Segundo Larry Young, da Universidade Emory , "todos os animais sentem prazer no sexo, mas a vasopressina permite associar esse prazer a características específicas de um parceiro – como o odor, no caso dos ratos"(o mesmo ocorre em fêmeas, só que por meio de outra molécula, a oxitocina).

 

 

A escolha do parceiro


A escolha de um parceiro é um processo que visa garantir a continuidade da espécie. Mesmo que não se pense muito nisso, a verdade é que se as escolhas fossem sempre mal feitas, a espécie não teria sobrevivido.


Entretanto, há outros fatores envolvidos e um fator relevante parece ser o perfil genético: o parceiro escolhido deve ter os melhores genes possíveis, já que esses genes vão ser passados aos filhos. Assume um papel importante o chamado Complexo de Histocompatibilidade Principal, relacionado com a defesa imune. Aparentemente, todos nós procuramos naturalmente alguém com um sistema imune diferente do nosso, para conseguir que os filhos tenham o benefício de ambos os sistemas. No fundo, quando nos sentimos atraídos por alguém, pode ser apenas porque gostamos dos genes dessa pessoa. Mas como é que nós avaliamos os genes dos possíveis parceiros? Este é um assunto ainda em discussão, mas no qual a bioquímica volta a assumir o papel principal! É amplamente conhecido que vários animais, comunicam entre si através de substâncias químicas designadas por ferormônios. O nome ferormônio deriva do grego fero, transportar e de hormônio, associado a excitar. Numa tradução livre, os ferormônios são "transportadores de excitação". O primeiro ferormônio a ser isolada, em 1961, recebeu o nome de bombicol, por ser a substância usada pelas fêmeas do bicho da seda – cujo nome científico é bombix mori – para atrair os machos. Até recentemente assumia-se que na espécie humana o processo de seleção de parceiros era baseado essencialmente em estímulos visuais. No entanto, hoje já é mais ou menos consensual na comunidade científica que a espécie humana também tem a capacidade de distinguir o genes do parceiro através do cheiro e que a visão pode ter um papel mais secundário (A. Comfort, Likelihood of human pheromones, Nature 230 (1971) 432; A. Weller, Human pheromones – Communication through body odour, Nature 392 (1998) 126-127; K. Stern, M.K. McClintock, Regulation of ovulation by human pheromones, Nature 392 (1998) 177-179 ; A. Motluk, New Scientist, 7 (2000). Pelo menos esta é a conclusão do teste das camisas suadas, realizado em 1995 (C. Wedekind, T. Seebeck, F. Bettens, et al. MHC-Dependent mate preferences in humans, Proceedings of the Royal Society of London Series B-Biological Sciences 260 (1995) 245-249). Neste estudo, um grupo de mulheres foi convidada a cheirar camisas usadas por diferentes homens durante dois dias, manifestando depois a sua preferência. A preferência foi sempre pelos homens com perfis MHC bastante distintos dos próprios, ou seja, pelos parceiros mais adequados geneticamente. Um resultado um tanto confuso neste estudo foi o fato de as mulheres que usavam anticoncepcional no momento do estudo tinham demonstrado preferência por odores correspondentes a perfis genéticos idênticos aos seus. É sabido que as fêmeas de rato, após engravidarem, voltam a preferir a companhia de indivíduos geneticamente próximos (irmãos, pais, primos... o que faz sentido em termos de proteção dos genes da família). Embora o paralelismo deva ser feito com reservas, é possível que o anticoncepcional – ao simular na mulher alguns efeitos da gravidez – induza a mulher a preferir a companhia de indivíduos geneticamente próximos. Ou seja, dada a importância do contato social na escolha de parceiros, a pílula pode induzir a mulher a escolher parceiros "errados"...


A questão que ainda se põe atualmente é se na espécie humana existe o órgão específico para detectar ferormônios – o chamado órgão vomeronasal, presente no nariz de vários mamíferos. Se assim for, então a espécie humana possui de fato seis sentidos sendo o sexto sentido a capacidade de detectar ferormônios (R. Taylor, The sixth sense – Your schnozzle may be receiving lewd messages from the opposite sex, New Scientist, 36 (1997)).


Num artigo publicado em 2005 no Jornal Europeu de Obstetrícia e Biologia Reprodutiva, foi comprovado que os cheiros podem afetar o comportamento humano e admite a existência de ferormônios humanos (K. Grammera, B. Finka, N. Neave, Human pheromones and sexual attraction, European Journal of Obstetric & Genecology Reproduction Biology, 118 (2005) 135–142). Certamente nos próximos anos teremos novidades científicas sobre a "química que anda no ar". Embora a investigação em ferormônios possa vir a definir o futuro do acasalamento humano, a verdade é que a espécie tem sobrevivido bem sem saber nada da bioquímica de ferormônios. Os nossos processos de escolha de parceiros, de namoro e de acasalamento, sejam eles quais forem, são inegavelmente eficazes sendo assim não estaríamos no patamar de mais de 6 bilhões de pessoas..."

 

sinto-me: Bioquímico!
música: The Chemicals between us - Bush
publicado por Nuno às 15:31
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